Sapato Preto III


As vezes me persegue, tira meu sono, minhas paz. 
Principalmente quando escuto aquela música que me remete a algo que vivi contigo, que um dia foi dito que aquilo nos representaria, que seria sua música para mim.
Hoje não vivo da tentativa de estar ao seu lado, nem quero, mas vivo dos porquês de termos tido história. 
E vivemos assim, criando nossos universos e colocando paginas e personagens dentro deles, sem saber ao certo como sair depois, como se livrar de tudo que nos aconteceu.
Só Deus sabe porque brigamos tanto ou nos tornamos amantes tão vorazes, e só nos sabemos o que vivemos naqueles dias que nao existiam a mais ninguem. 
Hoje eu talvez me arrependa das vezes que fiz você sofrer, mas não sou perfeito aos seus olhos e nunca seria, dei apenas o melhor que pude nas vezes que tentei ser o melhor pra você. E eu remexo nas memorias e procuro te achar, apenas para sentir que ainda se mantém viva dentro de mim, e que todo o tempo que vivemos não se apagou, por mais difícil que seja lidar com a ação do tempo.
E eu sou ruim em esquecer, em matar dentro de mim o que um dia foi mais importante que tudo, mesmo você nunca tendo enxergado isso. E nunca tendo aceitado que não existiria outra da mesma forma, porque não existia mesmo.
Da próxima vez eu acerto nos passos que dou e conseguirei salvar a mim , e talvez a você. Eu acredito que devo pagar, aprendendo com estas lembranças.
Agora que já não existe mais, que estes versos retorcem minha mente iludindo minha razão e fazendo perceber que realmente tudo se foi, eu registro, pra que fique explicito que dificilmente eu mato alguém como você, mesmo porque não é isso que quero. 
Não quero dizer adeus dentro de mim. Memorias permanecem.Porque eu plantei em você a esperança de tudo aquilo que sempre sonhou, mas falhei, como homens falham. Mas mesmo assim acredito que lhe fiz, mesmo que por momentos feliz, pois você teve o mais real de mim. 
Eu hoje sinto falta de ontem. Sinto falta de tudo que não tivemos. E provavelmente esta seja a maior prova de que eu me importava, enquanto você não enxergava o meu jeito de te construir. Te amar.
Sei que hoje sua vida é outra, assim como a minha também é, e possivelmente você tenha conseguido tudo que eu nao consegui te dar, e que hoje é merecedora, por você e nao por mim. E que alguém te fez enxergar o amor de uma forma tal que eu fui incapaz de clarear e expor, mas isto realmente hoje nao importa mais.


Ainda lembro do dia em que cruzei meus olhos com os seus e apostei que seria no mínimo especial. 
E foi.

Quero A Verdade

Nos atos, nos abraços, nos sorrisos que me dão, nos sorrisos que eu dou. Pessoas.
Naquilo que vejo, naquilo que sinto, nos homens que podem mandar, nas palavras que leio, e nas mulheres que posso amar. 
Quando acordo, olhar o céu e voar, livre sem amarras, pra onde o nariz apontar. 
Nos sentimentos que reparto, que absorvo, entrego de corpo e alma, sem medição. 
Nos olhos dos outros, principalmente que me encaram, que me medem, me seguem, tentam me atrair e me distrair, de pessoas que acredito sem crer. 
Em cada dia que precisar trabalhar, lutar, superar, viver aos tropeços.
Vinda da minha família, que ela seja a mesma, sem remendos, sem futricas, fofocas, separados ou juntos, perto ou longe, com aqueles que quero comigo. 
Nas minhas conquistas, nas batalhas que travo sem divulgação, nas reclamações que faço, que são aceitas ou não. 
No meu dia a dia.
Dita na cara, direta e reta, que pode ferir ou doer, juntar ou perder, mas que seja feita sem mentiras.
No meu destino, superando ou errando, passando perto, deixando longe demais, não vendo detalhes, mas só meu.
No amor, naquela que me ame, que se entregue, lute, descabele. Releve detalhes, entenda problemas, supere vontades, aprenda e ensine. Não espere a perfeição.
Cada vez que precisar perguntar, entender, questionar o porque, transformar o errado em certo, liderar e ser bem liderado, em vencer.
Ao sorrir, não aqueles amarelos, comprados, sem força pra ser aceito, sem malícia pura ou alegria natural, dos meus lábios ou seus, dos nossos.
Quando ligar para mim, dizer que faço falta, me chamar para sair, ou para simplesmente me ver, sem razão ou necessidade, sem motivo algum, mas que apenas queira.
Aqui, no que digo, nas letras que imortalizo, que faço parte de mim sem medo de dizer, expondo e cravando pra sempre.
Vinda do coração, da alma, de onde não podemos mentir, nem por força ou decreto, nem por nada.

Quero a verdade sempre que precisar mentir.


Escuro

É no silencio onde escuto mais dentro de mim. Cada batida no meu peito, suspiro e calafrio. Aqui dentro é insano e hipnótico, sem nenhum controle.
Nesta quietude eu transponho a razão e me torno imortal, sem medos ou traumas, sem o sabor da derrota, nem tampouco o conhecimento da vitoria.
Um espaço neutro, analítico, constatante, sem ninguém por perto.
Se fecho os olhos é para buscar caminhos, trilhas, luz. Aquele pequeno ponto de esperança. Se me livro das dores me vejo órfão, seco, inerte. Talvez ela me alimente, me deixa nao desprender do que sou, daquilo que preciso ter dentro de mim.
Neste silencio onde escuto só a mim, não há conversa, há entrega. Sou o dono do meu choro, triste, alegre, real. Sou meu juiz e réu, minha sentença branda ou pesada, minha auto ajuda ou meu suicídio.
Questiono todo tempo, não aceito o obvio, não acredito. A frieza que cultivo hoje foi forjada pelas marcas cravadas ontem, e ninguém se livra de cicatrizes. Elas denunciam você.
Aqui dentro é insano e hipnótico. Talvez um dia eu te leve mais a fundo, além das palavras que digo, além desta degustação do que posso ser. Te convide a alcova melancólica que me preenche, buscando o incontrável, sugando cada energia em minha alma.
Se desperto sem razão, enquanto todos dormem é porque existe razão. Que eu devo tirar de mim o que sufoca, engasga, esgana. São gorfadas de inconsciência racional, que eu externo para que fiquem bem claras e nítidas. Aqui eu estive, estou ainda, e viverei assim pois assim devo viver.
Enquanto este silencio me consome, eu respiro e transpiro, preocupado comigo, mas já me aceitando melhor a cada dia.
Meu universo é mudo e escuro, as estrelas que aqui habitam ainda não morreram, apenas o sol.


Sou

Esta mente conturbada, que não aceita o óbvio, desconfia do certo, deteriora a regra e mata. Enxergo o que não deveria, tiro de você o que não gosta, te faço sofrer por saber que realmente eu acertei. Minha mente, meu mundo, um universo desconhecido aos seus olhos, de onde eu vejo o inferno onde vivo, as mentiras que convivo, os detalhes ocultos. Eu estou cansado desta incompreensão, destes seres que rastejam ao meu lado, com seus atos podres e desgastados. Um mundo oco. Não sigo regras, as tolero, pelo tempo que achar necessário, não me doo aquilo que não acredito, e não me entrego ao que você acha correto. O que vejo são objetos sem vida, sobrevivendo por necessidade, sem vontades ou força interior, aceitando e concordando, isto me assusta.
Tudo aquilo que odeio reflete dentro de mim e me machuca. Não posso suportar sem gritar, apalpar e apenas dizer que nada é errado, eu preciso absorver e explodir, doa a quem doer, no fim eu preciso sobreviver à você. E muitos como eu estão a solta, transformando mentes e livrando os poucos que querem se livrar deste nojo que nos cerca, de um mundo sem vida.  Mantenho a ferida aberta para que eu possa faze-los sentir dor sempre que eu precisar, para que acreditem que existe o outro lado, um desconforto sem piedade, você não compreende. 
Vivo dentro de um lugar morto, olhos sem brilho, atos sem nexo, propósitos destruídos, eu apenas passo por eles, cegos, sem questionar nada, indo e vindo. Lutem! Eu libero toda minha insanidade racional, que assusta você porque foge a regra onde você descansa. Nascidos mortos.
Dia após dia continuo fortalecendo aquilo que cultivei a anos, seguindo meus mandamentos, cuspindo em falsos profetas, religiões mundanas, sociedade doente, onde ratos se alimentas de ratos. Vocês não podem tirar minha alma de dentro de mim. 
É trágico e engraçado, uma diversão dolorosa. Aguardo os dias que atuo passarem, enquanto isso contribuo com a desordem em sua mente, quebro as amarras pouco a pouco, pacientemente. Logo mais não precisarei de nada disto, nada faz sentido, um pesadelo com começo, meio e fim. Hoje mais que nunca vivo sozinho, trazendo comigo apenas quem é capaz de aceitar, que tem coragem de navegar por aguas desconhecidas e turbulentas, que não vê o mundo com os olhos que todos vêem. Te trago comigo, e se você for forte, restará. 
Palavras sujas, inconstantes, singulares, sem sentido com sentido forte, confusas que te fazem se perder no caminho, esta é a razão. Um laço desfeito, um pedaço daquilo que repousa dentro de mim, local onde cultivo minha alma. Onde você jamais vai poder estar. 
Eu sou minha psicose.

Cada Vez Menos

A vida pra mim tem que ser vivida. Tem que ser magnífica e esplendorosa. A vida tem que te dar mais motivos pra sorrir que para chorar, mais dias que passam rápidos por serem intensos que aqueles que se arrastam por serem patéticos. A vida pra mim não tem desculpas, não vale ser por ser, não é digna se não haver motivo, e não me encanta se não me encantar. 
Não aceito e nunca vou aceitar que estar vivo por estar é belo. Quero que seja único e perfeito, que libere de mim tudo aquilo que mereço, e não só viver por viver. Isto não basta, não me conforta e não me faz melhor. Quem dirá feliz.
Prefiro a morte que uma vida de decepções, de lutas em vão, de desafios que não se concluem, de metas que não são atingidas, de quase vitórias. Isto pra mim não é vida, é carma, é apenas tentativa. Isso não me deixa em paz comigo.
Posso aceitar e sempre aceitarei o que a vida reserva pra mim, mas isto não quer dizer que vou aceitar e ficar quieto. Eu espero mais de você, vida. Espero que me deixe concluir os sonhos que tive, os desafios que crio, subir os degraus que enxergo a minha frente. Eu só exijo o seu respeito, da mesma forma que os outros respeitam você, porque eu as vezes te detesto.
E a cada tropeço que você me dá, justamente na hora em que estou prestes a conseguir, eu te detesto mais ainda. Sem remorso, sem pecado, sem medo de dizer o que penso. Se é pra ser sempre errada, que não seja, que tenha a dignidade de encerrar antes que eu encerre sozinho. Pois para os outros te admirar pode ser conforto, pra mim olhar por olhar é só comodismo. 
Eu continuo nesta toada, de pedaços de alegria e montanhas de dor, de momentos de glória e eternidades de fracassos. Não me interessa se pouco te faz feliz, se pequenos passos te fazem contente, eu repito e digo, eu quero mais. Sempre.
E eu vou sempre me cobrar, e cobrar as circunstancias, pois elas são sempre sinais, de que as coisas vão ou não acontecer. E eu prefiro tudo direto e reto do que estes pequenos lapsos de harmonia. Se é pra não ser então que aconteça de uma vez, eu to cansado. 
Eu to cansado de tentativas e erros, de sempre na reta final algo sair errado. Cada vez mesmo acredito, cada vez menos confio, cada vez menos sonho. 
Cada vez menos espero alguma coisa.