Guardião
Sincronismo
Desanimado, deixo a fadiga tomar conta de mim. Ela consome como droga, destrói por dentro lentamente, te envelhece, te seca, te definha. Leva sua imunidade, sua juventude, sua pulsação. Eu estou refém da belíssima fadiga. Ela vence, eu sou o perdedor.
Eu estou longe de casa, ou estou perto? Deixei lá quem me deixou, muitos daqueles que eu amei. Eu perdi, eu perco ainda. Perdi pois talvez nunca tive, porque não quero o que todos querem, eu procuro por mais que posso ver, talvez eu não veja nada do que quero, mas eu sinto, eu continuo sentindo. Eu aqui estou seguro e sozinho, estou salvo e condenado, respirando e doente.
Talvez eu passe por essa vida sem ser notado como eu queria. Talvez após isso, eu até seja, mas nunca irei saber. Não falo de reconhecimento, não falo de fama, falo de respeito e consideração. Talvez quando eu me for, tudo fique claro para aqueles que hoje não enxergam, não notam o tamanho de tudo isso que esta aqui, não notam o tamanho da minha grandeza, essa tal que me leva e traz sempre de volta. Eu sempre estou aqui, e você talvez nunca percebeu o quanto pode ser bom, só vê o mal.
Não me diga que sou incompreendido, não me chame de rebelde, não me menospreze, não use das minhas palavras contra mim, não me engane, não me desdenhe. Pense em mim como algo incógnito, sem regras, sem descrição, sem rótulo. Algo que você admira por desconhecer e por querer entender. Eu sou apenas isso.
Guardo comigo muitas passagens, historias, momentos, pessoas. Muitas pra sempre ficarão vivas e ao alcance quando eu quiser, como eu quiser. Talvez outras desapareçam com o tempo, com a necessidade, com a falta de cuidado em se manter aos meus olhos ou alma. Eu nunca esqueço quem me soma. Quem me vê como soma. Quem me inclui e não agrega. Eu estou aqui para fazer o bem mesmo sem você acreditar.
Tudo isso porque eu queria paz. Aquela, do começo. Eu queria paz. Que ela venha sem que eu precise mais e mais tirar. Que ela chegue antes de mais um amanhecer, antes de mais uma primavera se fazer, antes que eu deixe de crer. Sirvo como cobaia, como exemplo, como motivo, como chaga. Sirvo como peça, pedaço, trapo, estilhaço. Eu só quero a paz.
Não sou poeta, não sou artista. Não sou santo, não sou sequer anjo. Não sou nada além do mesmo. Sou eu mesmo. Obrigado.
Eu!
Tudo é tão simples, descomplicado. Eu aqui, assim, sem saber e sem pensar. Deitado acordado, sufocado, açoitado. Se eu não acredito em fim, ninguém mais acredita. Eu, eu, eu. Sempre eu.
Um universo bem pequeno e paralelo. Eu coloquei alguns fantoches, personagens. Eles vem, eles vão, não tão aleatório quanto eu descrevi, mas eu controlo sutilmente, peça por peça.
Já assumi ser insano o suficiente pra assumir que sou assim, sem que ninguém perceba, ou melhor não perceber. Eu faço de conta ser normal quando estou normalizando com vocês. Entendeu mas não compreendeu.
Se fosse fácil explicar, seria fácil demais e não seria nada do que deveria ser. Eu preciso rir, posso? Hahaha. Eu não acredito que alguém venha a entender. Que coisa mais estranha.
Se eu apertar um botão, isso tudo some, desaparece pra quem nunca apareceu, se é que um dia alguém realmente notou. Essa minha presença não é bem vinda.
Hoje eu marco passos longe longe. Aqui se eu quisesse ser você, eu poderia ser. Se eu brincar de sorriso e abraço, quem iria negar? Aqui eu poderia fazer de conta como aí fazem de conta comigo. Um vai e vem de suposições e situações. Eu não sou ninguém aqui.
Eu deixo essas palavras ficarem marcadas. Eu, eu, eu, sempre eu. Já deu! Por isso eu escrevo. Ou digito? Talvez essas palavras jamais existam. Eu apenas registro da forma que puder.
Se eu reclamar mais uma vez, eu não estaria mentindo. Mas ninguém se importa, ninguém se apresenta. Eu não sou nada além do mal que você evita, que você tenta se livrar, apagar, esquecer.
Eu vejo tantos sorrisos que comecei a sorrir sem ver, sabe?, automático, você faz eu faço. Vejo tanta bondade que me tornei um anjo em um céu azul, e branco. Vejo amor, demais, paz, demais, sem temor. Eu bato palmas e admiro, tamanho poder em ser bom. Eu sei ser bom, olhe para trás e puxe na memória eu sendo bom pra você, e pra você, e pra você também! Hahaha.
Muitas pessoas são cúmplices. Posso dizer quase todas? Posso. É uma abismo que eu sei, fundo, escuro, repleto de eu e vocês. Morreria sozinho lá dentro? Não não não. Eu vejo e sei, tudo aquilo que você não quer mostrar. Mas porque não? Não é bom pra sua vida. Essa sua vida, tão perfeita e tão brilhante. Suja! Tão ou mais que a minha, eu eu eu sei! Mas tudo bem, não se rebele e esta tudo dentro do seu controle. Respira.
Eu me divirto, quase sempre. As vezes fico tristonho porque tento brincar com gente morta, mas eu estou deixando esses definharem. Eu preciso do meu lado pouco, bem poucos. O resto é maldade, fazem mal, trazem o mal, pensam o mal, querem o mal. Eu me curo dia a dia e fecho as feridas que me deixaram aqui, abertas.
Eu vou sarar. Eu vou sarar.
Procuro pela cura todo santo dia, aqui dentro de mim, desse labirinto escuro. Sei que está aqui, como tudo está aqui. Só preciso fechar mais e mais, mais e mais, até não haver saída.
E você ainda acha que pode saber sobre mim. E você ainda olha pra mim como olha pra você. E conclui que pode ser tudo que eu posso. Não!
Nada é mais errado.
Sai daqui.
Querer
Mais que ter, mais que poder. Ser.
Querer constituir, entender, se tornar. Querer melhor sempre, que se fale bem, se entenda, que una e não separe. Querer uma vida sem medo, sem dúvidas do que é, sem vergonha do que não é. Querer ser belo e puro naquilo que faz, nas suas crenças, suas falas, atos, idéias. Querer como se quer à sí próprio, evitando atingir para não ser atingido, evitando dor para não sofrer. Querer ter forças para entender cada desavença, evitar cada contraste de mentes, pequenas arestas que destoam de qualquer perfeição. Querer ir aonde se tem vontade, sentir na pele tudo e qualquer sentido, o tapa que arde é o que te faz entender. Querer aquilo que seu coração pedir, de verdade, a cada pulso um aviso, um assopro que te empurra pra mais perto da glória. Querer que os que te amem sejam amados, que compreendam cada dificuldade e dor, e que estendam as mãos, "eu ainda estou aqui". Querer que se repitam as vezes que os sorrisos encobriram as lágrimas, te fizeram melhor, mesmo não sendo perfeito como pediu. Querer vencer qualquer luta, mesmo a batalha que te derruba, te traz força pra não cair mais, não da mesma forma. Querer acreditar que pode acontecer sempre que você tentar, que focar em se permitir todo e qualquer sentimento, te fará vivo. Querer deixar feliz aqueles que te fazem feliz, que batem palmas sinceras, que pedem mais de você quando falta, quando se quer estar bem. Querer ir longe, bem longe, onde sua mente te puser e seu peito tiver forças para te levar, alí, você estará feliz. Querer força, muita dela, para não perder as rédias, não soltar as mãos quando outras tormentas chegarem, quando as travessias foram tão largas que só juntos alcancem o outro lado. Querer de tudo um pouco daquilo que se quer, experimentar o sabor, o ardor ou afago, de ter conseguido. Querer viver bem, por mais duro que possa ser viver sem entender, mas que consiga viver bem de dentro pra fora, e não de fora pra dentro. Querer lutar por aquilo que bater o pé, sendo uma reação natural, do fundo do peito. Querer que estejam todos alí quando você precisar, querer, sentir falta. Quando chorar de alegria ou sorrir de tanta tristeza. Querer poder dizer tudo que precisar ser dito, antes que não exista mais como, antes que falte deixar tudo claro. Querer assim, de imaginar poder, de desejar conseguir, de conquistar de verdade. Querer que amanhã se junte com hoje, que veio de ontem. De tudo um pouco, um pouco de tudo, mas querer.
Eu quero. E você?
Destoante
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