Cativeiro



Já com o corpo dolorido da noite passada, mesmo sem conseguir abrir os olhos. Deitado encolhido com frio e sem espaço para se esticar. Ele pensava que aquilo era um sonho, não entendia porque de tudo isto estar acontecendo justamente quando parecia estar tudo bem. Uma pequena luz clareava as sombras de um inferno, onde se ouviam vozes e ruidos, vento e chuva.

A dor aumentava, sem controle, uma ânsia crônica visitiva seu corpo sem perdão. Mal cheiro, as vezes era melhor não respirar. Uma após a outra, suas esperanças iam dissolvendo, como em um paredão de fuzilamento, sem trégua. Ele não sabia se seria o próximo. Novamente a dor protagonizava os fatos. Um gemido para aliviar. Gritos são proibidos, condenados, punidos. O sangue desistiu de escorrer de suas feridas, nem ele possui forças pra lutar.

Não existe nada mais mortal que a falta de perspectiva. E ela invadiu seu corpo naquele momento, se apoderou, tomou conta de sua alma e cortou todas as raízes. Olhava para os lados, mesma visão, a dias. Torturante.

Passos fora do local. Esperança, pensa ele. Por um segundo seu corpo renasce, seus olhos se arregalam esperando ver o que a meses não podia. Dentro das veias o sangue luta por espaço, revigorando. Olhar fixo em direção ao que se aproxima.
Luzes, passos rápidos, palavras misturadas, barulhos. A voz que estava a distância agora sussurra em seu ouvido. Um puxão em seu cabelo, um tapa, ódio e dor.
Instinto, seus olhos se fecham novamente, o transe contínuo volta com força total. Coma.

Mais do mesmo. Sem fim jamais.



Chamas


Sem inferno, ou céu.
Dia após dia o que se vive é a historia que preenche os espaços marcados. Não há perdão, segunda chance, subornos ou ressurreição. Cada marca no rosto é definitiva. Os olhos secam com a força das tempestades de areia, ardem ao toque, sufocam até matar. O que não pode ser evitado.

Quanto mais a alma entra em agonia, mais palavras perdidas são ditas e eternizadas. A razão se perde entre os labirintos de um mundo que ele não gostaria de enfrentar, mas está cravado ao seu redor. Nada daqui se levará, nada será lembrado quando os olhos pela última vez fecharem e a respiração dormir. Pronto, terminou.

Quantas sobras de vida passaram despercebidas e nada permaneceu. Histórias banais, momentos sem lembrança, pequenas gotas de um prazer forjado e maquiado. Não existia o pecado, a luxúria, o inferno, o céu. Seus dedos rasgavam a pele e seus gritos ecoavam por aquele quarto úmido e quente. Suor, suspiros e confissões. Maestro do olhar, conduz seu desejo como um assassino em série, preparado pelo tempo para nunca errar.

Nada de correto em seus atos, muito menos de errado. Os anjos comem e dormem, sangram e sofrem. Mais justo que isso, apenas acreditar em sua morte.

Anjos do inferno.
Demônios do céu.



Precipício



Sobre as montanhas que quase tocam o céu, os braços abertos como querendo abraçar o mundo. Do alto nada se torna impossível, nada se torna grande o suficiente para desaparecer com o brilho do sol que ilumina seu rosto. Para os lados nuvens, pássaros, e o horizonte.

Queria ele saber planar, se atirar do mais alto pico e flutuar sobre seus próprios medos. A doce sensação do poder. Queria um dia sentir o mundo como os pássaros. Com a simplicidade que maqueia o medo, com a falta do temer, com movimentos simples e perfeitos. Nada além dos braços novamente abertos.

Pés doloridos pela caminhada, por uma subida sem tréguas ou alívios. Passo a passo. Nem o suor arruma tempo para aparecer. A escalada sozinho é mortal e não permite pensar. Desistiria. Fome, cede, dor. Cede, dor, fome. Dor, fome, cede.

Olhos para o infinito. Dois passos, bem próximos. Mais um e ele transpõe uma barreira sem volta. Chora, treme, teme, e quase sucumbe ao desistir. Mas estava decidido a descobrir o que ninguem mais poderia lhe contar, o que ninguem nunca poderia lhe proporcionar....

Mais um passo, fim.


Luz branca


E por falar e ouvir sobre sonhos não posso deixar passar em branco.
Aqueles mesmos que cresciam desbravando horizontes sem medo do que viria a seguir, sem os temores da vida e seus buracos negros. Os sonhos que construi sem paredes, que fiz crescer sem limites, e transformei em fato.

E hoje em dias os sonhos ainda encravados em minha alma insistem em não morrer. Mesmo apanhando por horas, por dias, por anos. Resistem ao tempo e a seus vilões. Nada os consegue deter. Crianças crescidas, fortes como touros, desbravadores e irresponsáveis.
A vida nos persegue, sem dó, sem misericórdia. Caçam nossos sonhos como lobos famintos sob a luz do luar, sob a camuflagem da noite, se infiltrando, cercando, perseguindo.

Mas podemos vencer, podemos encarar os fatos de que vivemos nossos sonhos se quisermos sonhar. Medo da fantasia que nossas vidas instintivas nos trazem. De viver.

E de onde menos se imagina a perfeição, a surpresa transforma lobos em cordeiros.


Mesmo Sem Querer



Posso me calar, posso ser de verdade, como posso transpor paredes.
Posso querer caminhar, e as vezes correr, outras nem sempre me tiram do lugar.
Posso querer sorrir, agradando os seus olhos, e por dentro estar fechado.
Quando posso ser eu, você vem e me poda, corta os tendões que me sustentam em pé.
Poderia falar as palavras que maqueiam seu querer, mas posso levar a sério a verdade e por isso não dizer. Pois se o que diz fosse a verdade, estampava ela em meu peito.
Posso proibir que se mostrem escondidos, o que lhe conforta em teu quarto, mas isso ainda sim não te faz feliz.
Posso te ver, estar com você, e ainda assim não te sentir presente.
Posso ter forças pra perdoar, pra relevar seus deslizes, mesmo que eles ocorram em seguida novamente.
Quando posso ser eu, eu me vejo em meio as suas tréguas de fim de semana, e aos seus surtos espontâneos.
Poderia ficar sem dizer o que penso, mas este nunca foi meu estilo, expresso o que penso para aliviar meu interior.
Posso querer que você entenda as palavras. Mas não posso te ensinar a isto.
Posso pedir que se cale. Me conforta as vezes o silêncio.
Posso acreditar que faça isto sem pensar. Porém, que me tira do sério, não posso negar.

Quando nem um raio de luz transpor as barreiras. Poderemos não mais nos lembrar.