Sobre hoje

Se esses olhos enxergassem lampejos do futuro, o que ele teria feito? Se cada passo pudesse ter sido dado certo, e cada dor evitada mesmo antes de acontecer. Como seria?

Teria feito escolhas melhores, dito frases menores, aprendido tão fácil. Teria sido um exemplo. 

Teria evitado que meus pais sofressem, que meus amigos se fossem, que minhas vontades se perdessem. Que uma dor sequer doesse. 

Teria chorado mais, rido mais, aceitado que a vida te escolhe e não você escolhe ela, e que tudo vai ser trilhado quer queira você ou não. E muitas coisas no final podem dar certo. 

Teria abraçado meus tios, minha irmã, minha vó, meu cachorro, e deixado um último sorriso antes que não pudesse deixar outro sorriso. E que mesmo sem eu saber o que dizer, eu já teria dito que era incondicional.  

Teria apoiado cada escolha de cada amigo, mostrado a eles que tudo que eu sempre quis foi que pudessem ter a coragem que eu tive, e que vivessem junto comigo tudo que eu sonhei com eles. 

Teria mostrado aos meus pais que eu posso não ser nada do que eles gostariam que eu fosse, mas que qualquer coisa que eu seja, serei do fundo do coração que eles fizeram bater. E ele bate justo, verdadeiro e único. 

Teria entendido muito mais fácil e rápido que uma família pode ser refeita, e que irmãos e mães não precisam ser do mesmo sangue, e o que eles representam pra mim não tem palavra que defina.
 
Teria mostrado que por mais duro e frio que as vezes eu possa ser, eu só quero o bem, e que muita gente que eu perdi por ter sido assim, ainda  poderia estar aqui...

Se esses olhos enxergassem lampejos do futuro, talvez eu chorasse rios de arrependimentos, ou batesse palmas para tanta coragem e provação dentro de um único ser. 

Que o destino me guie até meu último suspiro.

Ramalhete de respostas

Lembro-me das vezes que caminhava em silêncio por esta rua turva e gelada. Um deserto à três palmos, nebulosa neblina.  Lembro-me de contar os laços e vãos entre os estreitos paralelepípedos, e de alguns deles brotaram mudas verdes de vida. Quanta poesia. 
Antes eu caminhava muito sozinho, quase sempre era comum, e vislumbrava todas as nuances da minha própria existência. O silêncio meu parceiro, conselheiro sincero, incontestável, verdadeiro, cruel em suas verdades. 
Sangro os lábios por libertar a ansiedade, e ela revida, pois à tempos se recua reclusa, sem espaço para aflorar. Ansiedade que aflora trás más consequências.  Se torna súbita, afobada, caótica.  Eis o que evito ao máximo, o caóticísmico das verdades sem razão. Das incisões que rasgam minha pele. Um fio de sangue, turvo, ácido, doce. 
Se o caminho até aqui me trouxe descalço e calejado, quem dirá o que virá. Não há fronteiras físicas que interrompam um objetivo, uma busca, um ramalhete de respostas.
Se todas fossem concebidas, doadas, dadas, talvez o assombro da incerteza não nos empurrasse pra frente, mais é mais. 
Estou no fio de uma estreita linha da vida, que passa diante dos olhos em flashes preto e branco. Um piscar e tudo some, se perde, se desfaz. 
Esta rua sem saída, sua praça e árvore, antigas e antiquadas. De lá sinto saudades, um pouco de tudo que eu tinha, ainda existe, e se foi.
Mais um ciclo reinicia, prometemos e não cumprimos, cumprimos sem prometer. Colecionando vertigens, colecionando fracassos. 
Mais longe irei ao caminhar por onde antes ancorava. 

Mundo Cinza

Existe um mundo que poucos podem ver. E ele existe tão perto daquele que conhecemos, e ao mesmo tempo tão longe, que assusta.   
Recentemente foi sutilmente representado publicamente, e me fez sentir alívio já que não sou apenas eu que tenho o dom de enxergar esse lugar. 
Esse mundo, esse inferno real que passa diante dos olhos, é tão intenso e nebuloso que te traga pra dentro, como um espiral infinito, e você pode nunca mais sair de lá.  
É um inversão dessa cortina, um universo onde a realidade por trás de todas as máscaras caem, e as palavras não surtem seus efeitos, e sorrisos não subornam a alma.  
Ele é cinza, pálido, rachado. Um silêncio oco, não reflete, não pulsa. Craquelado como vitrais em preto e branco.  
Rodeado de pessoas sem rostos, vagando perdidas buscando o incerto, o reencontro consigo mesma, uma saida deste labirinto sufocantemente confuso.  
Alguns tem o dom de derrubar esta cortina real, e flertam entre paralelos. Outros fingem que não vê, e a grande maioria não aceita e literalmente não percebe. 
Um filme antigo, um retrato da dor, das mentiras, um limbo mutante dissolvendo pessoas e despindo almas. 
Sou um desses "abençoados" com a lucidez de enxergar o inxergável. Com a maldita condição de transpor sua carcaça e remexer no seu âmago. 
E isso incomoda. Muito. Isso judia. Não há dor maior que a da transparência.  Que revela seus contornos, traços, rascunhos. Ninguém quer se ver despido por dentro. 
Paralelo que me impede de dormir, que me convida nas madrugadas à visitá-lo, enquanto você, aqui, dorme. 
Já perdi as contas de quantas vezes rastejo por este lugar, e de quantas vezes durante anos, dilacerei a alma de muitos infelizes que cruzaram meu caminho, e ignorantes, não perceberam nada.  
Hoje confesso, tento lutar contra na maioria das vezes. Não é prazeroso, não é saudável. Dói, desgasta, maltrata a gente.  
Mas com a certeza plena de que nunca deixará de existir dentro de mim.  


O Fim Do Labirinto Da Dor - Meio

Antes haviam dúzias de porquês, hoje há alguns. Alguns deles temerosos a maioria das pessoas, e insistentes guerreiros à mim. Uma batalha redundante e angustiante, de dentro pra fora, invisível. 
A cada dia, mês, ano que se passa, eu me conformo com a inexistência da perfeição, e a dor da desilusão. Talvez uma desilusão tão utópica que só eu criei, e me mantive fiel, derrotando dúvidas mas sucumbindo à vida. Ela sim é justa sem fazer força. Como um curso natural. 
O fim do labirinto da dor é na verdade uma organização fúnebre de verdades imutáveis. Uma constatação cruel de que faça o que for, não será.  Lute como nunca lutou, e perca como sempre perdeu. Não há nada a ser refeito. 
Ao redor o que vejo são insensíveis vidas que se perdem na ignorância e dissolvem ao tempo. Castelos imensos, de frágil areia, ruindo e se desfazendo aos olhos testemunhosos de quem talvez nem enxergue, enquanto eu, daqui, não me conformo. 
Dessas milhares de vezes que perdi a noção do tempo tentando achar o tempo que perdi tentando ter noção, me deparei com tudo que não posso mudar, apenas aceitar. E aceitar aqui, veja bem, não é desistir, não é se entregar, não é parar. Aceitar aqui é aceitar, na pura concepção da palavra, que a vida lhe guie, lhe ajude a plantar e colher, os clichês frutos que sejas merecedor. 
Quando as palavras aqui por fim adormecerem, será porque toda e qualquer batalha parou.  Será porque até o mais forte guerreiro não sustenta o peso nos ombros por toda eternidade, e mais cedo ou mais tarde, dobram-se os joelhos. 
Eu conservo medos infinitos, forjados por uma conturbada existência, entre dúvidas e respostas exatas, e dúvidas e respostas lúdicas. Esses medos, alimentados por tudo aquilo que vivi em três décadas, são parrudos, gordos, obesos. Inertes ao tempo e bloqueando minha passagem, minha realização. Ou impedindo que eu veja o que quero, ou seria me privando de ver o que não?

O meio do fim do labirinto da dor nada mais é que um refluxo natural, uma reanalise racional dos gritos que se foram, e daqueles que ainda ecoam. Curiosamente estes ecos hoje são mais perceptíveis que ontem. Talvez haja mais como eu por aí, vagando por entre portas abertas e caminhos rabiscados à giz. Vocês não estão sozinhos.  
Ando desejando que no futuro, toda lucidez me seja desprovida, e que boas almas me conservem enquanto eu pavimento minha última trilha, dou meus últimos passos. Desejo talvez que não me lembre das falhas que cometi, dos amigos que perdi, das vezes que não sorri. Se é que saberei como desejar.  Mas deixemos pra lá o que ainda não está. São só devaneios, só devaneios. 
Falando nisso, é certo que complique cada vez mais a leitura desses meus gritos. Sim, eu preciso filtrar aqueles que não podem compreender, que não sentem como eu sempre senti. 
Fecho os olhos, abro os olhos.  É uma náusea minha amante, das madrugadas relutas, parceira que ninguém vê. Sinto que padeço calado, aqui sem estar aqui, sem ser notado. Nostálgico da época de palcos e holofotes. Tempo ilusionalmente bom.  
Fiz uma visita rápida, de passagem, daquelas surpresa. Precisava mediar e plantar mais uma semente neste caminho final...
...e aqui está o meio. 

Visitante

"Talvez um dia ele retorne à assombrar minhas noites, não por vontade mas circunstâncias, as mesmas que hoje não mais alimentam esse covil. Espero que jamais."
E "jamais" é tão irreal quanto a minha tentativa de viver sem dor. Um brinde à minha companheira inseparável, a angústia. Como um sutil véu de seda, paira sobre mim cobrindo todo meu corpo, se assentando sorrateiramente enquanto inocentemente tento dormir em paz. Não há na minha vida paz.
Por mais que eu acoe minha alma, como um cão em um canto, por mais que eu me reduza ao mínimo e aceite viver das migalhas em troca de transpor antigas barreiras, elas se remontam. 
O que assisto diante dos meus olhos são frustrações homeopáticas minando nossa resistência. Abrimos as asas para voar e percebemos que a força dos ventos contrários nos empaca. Os olhos focados ao longe mas os pés patinando sem sair do lugar. Metáforas pra ilustrar poeticamente a frustração.
Quando você metafora sobre algo, você tenta dissolver a verdade em desculpas compatíveis do mundo real. Mas elas já são feitas de verdades como as suas.
Quais são os passos errados que ando dando? Eu odeio redigir perguntas, mas minha mente anda martelando essa frase. Como me tem refém! 
Me tira o sono e me inunda de náuseas caóticas enquanto o mundo dorme em seu palco perfeito. Eu acordo dependurado, amarrado pelos pés de cabeça para baixo em um vale infinito, sem fundo, sem beiras. 
O fim do labirinto da dor não se faz em poucas partes, nem em partes sequenciais. Eu já havia previsto. Eu sabia que não seria tão fácil. Afinal, é um labirinto. E por mais que você estude e decore seus passos, há encruzilhadas sem respostas.
Não pretendo me entregar. Não, ainda é cedo. Ainda há forças pra aceitar que não devo parar. Ainda há razões dentro do peito que me empurram. 
Há você, sem sombra de dúvidas, que acredita em mim talvez mais que eu, e que me vê lutar, testemunhando dia após dia as batalhas, virtuosas e torturantes, com lampejos de sucesso e avalanches de frustrações. 
Mas como seriam nossas vidas se não estivéssemos vivendo?